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Mostrando postagens de agosto, 2017

CONVERSA N.1

um dia as estrelas vão cair e tudo o que vai restar é um céu negro sobre nossas cabeças e... um chão salpicado delas? você já disse isso. estou me repetindo? (dando de ombros, ajeitando o cabelo, acendendo um cigarro) mais ou menos. fica de boa. a gente sempre se repete mesmo. (silêncio) sabe... o que? certa manhã eu voltei para o meu apartamento, bêbado, e lá estava a silhueta, sabe, de quem eu te falava, recortada contra a cortina. a minha surpresa foi ver que ainda não tinha se mandado. ido embora? é, e eu tive vontade de dizer algo, mas a minha língua estava pesada. mas pensei que não passávamos de fantasmagorias... (gole na bebida - alguém escolhe "the big hurt", com del shannon, na jukebox. um sorriso) há tempos não ouvia essa... eu também gosto dela, mas prefiro "lightnin' strikes" (outro sorriso) lou christie? isso mesmo... (apaga o cigarro no cinzeiro, esmaga com o polegar) você falava de fantasmagorias... fodam-se elas. vo...

(SEM TÍTULO)

o nome deste texto é "sem título". eu o resolvi batizar assim porque não pensei em nada de muito criativo, e esse é um adjetivo que não tem caído como uma luva em mim nos últimos dias. Então pensei: "há outra forma de ser criativo, meu caro alexandre, do que escrever um texto em que admite que a tua criatividade tem andado a zero e terminar por chama-lo de 'sem título'?" - se tal sugestão partisse de outra pessoa eu a acharia uma merda, mas como fui eu mesmo quem disse num daqueles papos esquizos que neguinho tem as vezes de si para consigo - diálogos internos, manja? -, eu me respondi com um singelo "vai se foder". assim, a minha voz interior se calou. Provavelmente deve ter se magoado. foda-se. imaginei um milhão de situações sobre as quais escrever, algumas mirabolantes demais, tão mirabolantemente boas que eu mal podia acreditar que as tive, e quando as tinha as anotava em um caderninho, mas quem disse que eu conseguia desenvolvê-las? vivia o...

Isso

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Minh'alma num altar - Branco, branco...- Contra a escuridão do meu peito Estremece. Sublime pérola imperfeita Num colar de angústias, Minh'alma junto a tua Orna o percoço do Universo, Contas de lágrimas e dores Que o sagrado perpetua Num bruto verso. &&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&& isso A promessa Nesse abismo Exatamente assim Morro e renasço  Todos os dias Nisso sim

Abebé psicanalítico

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O amor e sua falta e todo aquele lance platônico-freudiano deslisando sobre os corpos dos homens, incautos e alheios, que já amei. Eles decalcam, eu declinei. Não é a falta o que em ti busquei, (a cova soturna dos afetos-fantasmas, reproduzindo o objeto perdido no reencontro que alucina) mas o que tenho, sofro, no meu rosto que jamais saberei. Nos retratos do que me escapa, que rosto escondo a cada presença? Foge o que persiste na imagem turva que teu rosto reflete do meu, ali onde o fetiche forma a crença. Que brilho no nariz reluz, que ar sandeu? Estigmas de uma dor que não morreu... sinais, teu corpo descobrindo o meu. Não, não é a falta, a dependência, ou medo dos joelhos trêmulos do cativo, coita amorosa desfilando vasta pelos salões palacianos desse museu de afetos; é o que sou que retorna e sai dramaticamente da neblina dos teus olhos; é o reencontro com essa presença em mim de quem fugia, escondia e ardia. O amor e suas latências.

a via crucis de um cristão à beira do abismamento: a culpa, a redenção, a culpa.

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Era uma vez um homem que pelos caminhos tortuosos da selva obscura dessa vida acordou, mas é melhor dizer que somente abriu os olhos, pois, considerando a noite em claro, passada feito nativinsone, acabou não sobrando muito tempo para um descanso decente. O pretenso despertar veio acompanhado de ribombante latejar do que quer que houvesse em sua caixa craniana e de desconfortável sensação de ser passageiro de um carrossel desgovernado. Mesmo que se force a levantar da cama e arrastar-se trôpego ao banheiro, tais sensações não serão vencidas tão facilmente. Ofensivo, lá fora, o sol brilha num "bom dia" que nada vai ter de bom. Imagina a própria cara, ainda carregada da sordidez autodestrutiva, hedonista, incansável. Semblante de vida não vivida. A água nas mais em concha refresca e desperta do estado zumbi, mas está longe de ser o lenitivo que irá curá-lo. Ele está preso e sufocado pelas altas paredes que construiu. Elas são de uma dureza áspera, cotidiana, e, onde quer ...

O Outro

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...e então ele chega, e traz consigo pisantes maneiros, ditados dos avós, pelos no nariz, uma vida de formação na cultura pop e um gosto musical cambiante, entre o fandárdigo e o escatológico.  Creio que nunca mais sequer ouvi alguém fazendo referência à cena psicodélica turca, japonesa e coreana, pois é unânime, o cara é único.  Posso, por isso, dizer que grande parte da minha formação cultural se deu na minha primeira juventude universitária, nos tempos vagos que dedicava a frequentar o apartamento do São Geraldo, na rua mesmo do terreiro de candomblé que frequento hoje em dia. A casa do Morêra Mourovski foi palco de descobertas, de sonhos, de brigas homéricas por escolher a trilha sonora, de filmes clássicos e de leituras arrebatadas.  Mas eis que após dezesseis anos, pelos caminhos tortuosos da vida, retomamos agora  a escrita compartilhada, multiplicando os devires e os vincos, produzindo uma polifonia despretenciosa, pelo simples prazer de manchar as p...

Alphachanneling

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Alphachanneling

Réquiem para Marla Singer

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Restos, fiapos, rastros, precipitação do excesso que expirou: aqui jaz M.S., sepultada nas nuvens da fumaça do próprio desejo. Tragou a vida e restou tumor. Mal ajambrado casaco de anseios, Ela é um conceito da falsa capa de amor. Nascida na falta, morreu no pejo: Transtornos inventados no som de um beijo Que seu fim lhe dedicou.

Ergo sum soul

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Alexandra Dvornikova http://allyouneediswall.tumblr.com/  Atada a um centro          Agora sei quem sou Atada a um cetro. Falo: cego!           Escorro e já não soul.  Teu cetro-falo-ego Não reina no que sou. Escorro sangue negro, Solto as rédeas aonde vou. À casa onde moro Te convido pro meu show. Reverto parede de concreto Em verdes florestas do sul. Habito bichos, céu e rios... Vicejo mesmo a noite mais azul. Emprenho do teu norte, desnorteio, Tremendo ao som de um blues. Assim, se sangro em teu cetro,            Ergo sum. Reverti em plano aberto Morte em vida no que sou.

Dentro da noite mais escura

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Dentro da noite mais escura, As folhas secas caminham pelo chão do pensamento. Amontoam-se como quer O vento, padrão fortuito das emoções. Dispersa é a minha alma Nas sobras dos dias que se acumulam. Dentro da noite mais escura, Escuto os rumores do vento sobre o dia Que não tardará a se eclipsar. Pois... Sobre o sol vão restar as folhas Que a minha vida lançou ao chão que ardia. E ardendo, o sol se alimentará, Consumindo as folhas quebradiças que a memória Envia pra queimar. Dentro da noite mais escura... Sou Prometeu soerguendo a tocha Ante minha alma humana Condenada que estou à rocha E à fogueira insana Das paixões.

Raiva

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Dos afetos que te levam às cercanias do ser, a raiva tem sido um dínamo que põe de volta em movimento a passividade, restaurando a possibilidade de alheamentos e devires, de afirmação radical da destruição dos altares, do estabelecido. Em toda raiva há um desejo revolucionário em jogo, imerso numa energia que potencializa a violência, a morte, a execução. Quem ousa negar a necessidade desse afeto? Decapitemos os tiranos e vicejemos! diz a raiva. Observar a explosão desse pathos (e que se note a expressão corriqueira com que nos reportamos ao momento em que o fenômeno eclode, explosão) serve para sustentar sua importância dentro dos processos de mudança. A raiva nasce no indivíduo que se encontra em um contexto em que a realidade dos fatos externos se tornou insustentavelmente esmagadora, forçando-o a reagir de forma enérgica. Nesse sentido, a raiva difere do ódio, que é uma raiva cultivada desnecessariamente. Ela, por outro lado, é uma reação ao contexto, portanto, contextual...

Viver é um desastre que sucede alguns

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Tender is the ghost

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Tender is the ghost The ghost I love the most Hinding from the sun Waiting for the night to come Tender is my heart For screwing up my life Lord, I need to find Someone who can heal my mind (Blur - Tender) Dos sentimentos intensos, ao qual tudo o que sou responde vibrando, a ternura parece ser o meu predileto. Considerada inofensiva, atrelada ao sentido do meigo, do afetuoso, como de fato encontras no dicionário, a ternura esconde seus tentáculos sob a capa da frivolidade. Por isso, se me permites novamente, é preciso tatear com calma o relevo geográfico desse afeto para que um esboço de cartografia nos permita melhores viagens; ou, pelo menos, trajetos pouco acidentados.   Antes de tudo a ternura é uma pinça no nosso nervo sensitivo que paralisa e comove nosso corpo. Quando ela se manifesta, ela explode na superfície, atirando longe qualquer máscara. Somos automaticamente despidos pelo sentimento de ternura que nos denuncia submetidos à capacidade de amar. T...

A gravidade não perdoa

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O vago mistério das vertigens ancorando o coração à gravidade; O peso que sobra ao arremesso nas pontas dos dedos: dardo que atrasou; Guindastes para almas que, dormentes, morrem. Mastros no horizonte da frota de navios que não retornou. Pairam, assim, náufregas paisagens entre o sucumbir e as veleidades. Meus olhos flagram o vazio Entre o tropeço e a vaidade.

Milagres

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Tem golpes da vida que não deixam espaço para respirar entre um ataque e outro. Esses golpes têm a eficácia de nos desterritorializar, arrancando à força os mapas internos, os caminhos de casa, a identidade; golpes que nos fazem perambular nas florestas mais densas em busca do nosso nome, como crianças perdidas, como Alice. Por isso a urgência em buscar referências, trilhar caminhos conhecidos, voltar às águas da infância; por isso o errar sem destino, pois já não há volta e as portas da casa da infância estão fechadas. O decifrar do Destino rir-se por trás dessas portas da casa materna, trancafiado na mudez dos fatos que pontuam a nossa vida. Desses golpes faço listas no corpo, tatuagens que passam a compor a nova paisagem da superfície para restar fundamentos do que construirei sobre as ruínas a seguir. 1 - o olhar possesso da mãe 2 - as cavidades profundas dos olhos mortos do pai 3 - o adeus que se vê liberto do amor 4 - a pele flácida da solidão na velhice 5 - o homem ...

Tartamudear

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Aquela palavra que nunca escorrega da boca é teu nome; Aquela palavra faminta, presa entre os dentes, É teu nome. Teu nome cheio de surdos apelos, feita de tu, ti, tu, tu, ti triturados pela falta de ritmo. Aquela palavra insone que contempla, atônita, a noite muda É teu nome. Desnomeio-te. Arte: Shiori Matsumoto

sobre sonhos

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As vozes dos outros fazem menos sentido do que seus sonhos. A ponte entre o que queremos nos dizer é mais estável do que o que a que nos leva ao que o outro diz. Atravessemos aquela e contemplemos o outro na sua distância natural.