a via crucis de um cristão à beira do abismamento: a culpa, a redenção, a culpa.



Era uma vez um homem que pelos caminhos tortuosos da selva obscura dessa vida acordou, mas é melhor dizer que somente abriu os olhos, pois, considerando a noite em claro, passada feito nativinsone, acabou não sobrando muito tempo para um descanso decente. O pretenso despertar veio acompanhado de ribombante latejar do que quer que houvesse em sua caixa craniana e de desconfortável sensação de ser passageiro de um carrossel desgovernado. Mesmo que se force a levantar da cama e arrastar-se trôpego ao banheiro, tais sensações não serão vencidas tão facilmente. Ofensivo, lá fora, o sol brilha num "bom dia" que nada vai ter de bom. Imagina a própria cara, ainda carregada da sordidez autodestrutiva, hedonista, incansável. Semblante de vida não vivida. A água nas mais em concha refresca e desperta do estado zumbi, mas está longe de ser o lenitivo que irá curá-lo. Ele está preso e sufocado pelas altas paredes que construiu. Elas são de uma dureza áspera, cotidiana, e, onde quer que vá, elas o acompanharão. À rua: tentativa de sumir na multidão. Seria mais um no meio de muitos, não fosse o olhar cheio de raiva resignada que só tem quem é perdedor.  Ele ainda não se considera um e nem chegou no fundo do poço. O que há é à espera de que seu nome seja anunciado para o mergulho lamacento que apagará qualquer vestígio de sua passagem.

Anda anda anda bate perna por tanto tempo que nem sabe o quanto, imerso em autocomtemplação mórbida. Sol alto, a pino, pinta de inclemência. Deseja uma refeição leve, líquida, porém insuficiente para que esqueça de si, da promessa não cumprida em que ele se tornou. O seu futuro, quando vislumbrava em dias passados, era tão brilhante que para poder admirá-la tinha que usar óculos escuros. Mas não é nada, e nem deveria ser. Mas hoje, se ele tivesse capacidade para escrever algo de construtivo, diria que a vida é um presente maravilhoso, desses que não podem ser desperdiçados na fugacidade dos desejos vãos que nos tornam seres humanos, a mais perfeita tradução do que é imperfeito. Nessas ações, pensamentos, anseios, tudo é ínfimo, pois está cheio da iniquidade e concupiscência nas quais fomos gerados e que nos acompanham até o suspiro-símbolo da passagem para o outro lado do rio. 

Tem receio de tornar-se um Martin Eden, aquele que deixou de saber no momento em que soube. Tal receio é bastante palpável já que o momento é pressentindo inevitável. 


(A direção está travada. À toda, de encontro ao muro da espatifação) 

Alheio a tudo,incauto incauto, a estranheza inerente à cada rosto que passa por ele. Diferentes vozes, masculinas, femininas, adultas, infantis, jovens, velhas, todas apresentando o mesmo tom monocórdio, fonemas saindo velozes de suas glotes e ele se pergunta quando aparecerão as ratazanas que se banquetearão de sua carne. Talvez depois que terminasse de rolar ladeira abaixo. Se aparecerem será à noite, sob o seu véu negro, maligno, desesperançado. sentirão se a sua refeição está inanimada de fato, como ela se lhes apresenta. O suave olor do mais aguardado manjar divino! Murídeos, regozijai-vos com que o destino lhes presenteia! E, no fim, é o cheiro de sua carniça a manchar o alvo ar do dia que surgirá.

Cabisbaixo, o resto de consciência, o ponto mínimo de personalidade sobrado, recrimina, cobra, esculhamba, agradece-lhe por nada e arremata num emputecimento implacável, quase materno, que, se ela existisse como deveria existir, presentearia-lhe com uma gravata colombiana. Ele procura abrigo, e encontra o leito que não queria encontrar. Ela o recebe, a única que o consola. Ela, mas Ela o esperava angustiada. Quando o vê, sorri, apesar do jeito que ele surge, daí chora sem verter lágrima. Aspiraspiraspira e vai de zeracentivinte em milésimos de segundo. Vem a vontade de conquistar o mundo, subjugar seus defenestradores, impor-lhes as mais hediondas torturas, sal nas feridas, dores cáusticas. Bombas de hidrogênio em explosões sucessivas ao redor do mundo, atentados múltiplos, o total desprezo pela vida humana que desaparecerá em deslocamento de ar malévolo, ígneo. "Onde está o orgulho, a soberba de vocês? Onde está metida a sua lubricidade senão no ânus carcomido pela putrefação moral, egoísta, de quem se interessa por nada a não ser pelo que é oferecido pela versão distorcida do jardim dos prazeres terrenos? Asquerosos, vosso destino não é outro, mas aquele proporcionado por minhas mãos, portadoras do sofrimento merecido. Eu sou o anjo da destruição, o arauto da desgraça. Bondade sumida, desaparecida, e todos se ajoelharão pedindo perdão por suas transgressões, venalidades, por tudo que vai contra a natureza.Aos amantes de mentira: sabereis que da vossa desventura, inomináveis, quando meu castigo se abater sobre vós.

(Por que chora meu coração? Ainda que eu conheça minha culpa, por que reincido, o mesmo, sempre? E se eu confesso, sinto minha alma orvalhada do sangue que pinga do Sagrado Coração, o espírito guiado pela Divina Luz, certo de que um dia ascenderei. A maior virtude daquele que espera um milagre é a paciência. Gloria in excelsis Deo, pois Ele ainda não deixou que eu me tornasse uma pessoa cujas possibilidades faliram. Mas cedo às minhas fraquezas, às tentações sopradas por demônios em meus canais auriculares, suas blasfêmias, suas ignomínias em sussurros melodiosos. Ser o adorador priápico da falsidade. Por que meu coração trinca dos dentes? Triste. A auréola da santidade transformada em cacos.)


Encerrado em sua necessidade que o obriga a prender-se acorrentado, a jogar-se em queda livre para o abismo que o encara, esperando tragá-lo para as profundezas da dependência. Vamos, ele tem consciência, ele sabe muito bem com o que se meteu; e, por mais que busque a saída desse labirinto sempre aparecerá a mão inimiga a empurrá-lo de volta ao começo. Veias temporais em alto relevo pulsante. O merme gosmento e seboso de suas inseguranças foi surgindo ao longo dos anos: o que resta é a pálida recordação daquele que foi. À sua presença escondem-se silhuetas e sombras. No espaço seu grito nao será ouvido, assim como não está sendo agora, com seu ego desinflado, solitário, retornado a mais tenra infância. Só que, naquela época, inocente que nem sonhava de tanta pureza, encontrar o que encontrou, ver o que viu, conhecer quem conheceu, fazer o que fez. O tesouro dos derrotados é o arrependimento. A todos que se encontram neste estado: assumir a própria culpa é a negação da eficácia do mal. Com esse gesto a busca da redenção deixa de ser abstrata, assume-se postura de quem mata no peito todos os atos, bons e maus, que hajam sido praticados em sua passagem temporária neste plano, no qual não existem vencedores  nem perdedores, mas apenas marionetes. Eis a vida, o que ela é: o incessante procurar do engrandecimento.


Foto P&B: Alexandre Mourão
Manuscritos datados ao ano de dois mil e três.
Texto: Alexandre Mourão.

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