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Mostrando postagens de setembro, 2017

carta ao irmão

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E me invadem saudades das nossas conversas pretensiosas, da sensação de tocar no fogo das nossas almas, de nos sentir em suspensão do mundo nas entranhas das nossas ideias e pensamentos. E um cordão de imagens, um comboio de lembranças, um cortejo de afetos passam em carnaval. Porque é assim que te vejo hoje, com a intensidade que pensei que sustentaria até o fim, mas que ficou ali pra trás, amarelecendo como as fotos mais antigas desse baú. Não pense, no entanto, que isso é um lamento. O gosto pela nostalgia ainda me soa a deleite lânguido, estado mde espírito que cultivo ainda hoje, mas que reservo aos meus santuários mais íntimos, onde surges dos resquícios. Marcas. Tarde no jardim, com um livro equilibrado sobre as pernas cruzadas enquanto tentas acender o cachimbo. Algo nunca superado! Minha mãe havia te dado um cachimbo feito de madeira de roseira e isso sempre me fazia sorrir de indignação! Mas ali, no jardim de outrora, quanta afetação! Éramos baluartes de nós mesmos e acr...

A importância dos sonhos

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Dando voz aos reflexos

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reflexos

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e te vejo um simulacro no peito em mil reflexos pelos espelhos e nos rastros que deixas em outros espelhos partindo: estilhaços pelo chão. e te vejo no meu rosto refletido gotas breves de ilusão me vendo pelas frestas dos teus olhos sobrepostos aos meus de onde miro a tua visão. Nessa multiplicação vais sumindo atravessando outros espelhos até sobrar apenas o meu olhar: um gesto que perdura sem estação.

Scherazade

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I see it up ahead I've seen it all behind I see it at the sides Though I've no point to try But if I could do Then what I would do to you I see it in the day I see it in the night I see it all the time Though I might not desire But if I could do Then what I would do to you

por entre o mar

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por entre o mar o Ninguém estende a mão uma canção, uma escuridão tão desalentado, gesto oco sente sensível, ainda grosso desvela qual pétalas presenças odes do corpo, vêm em desavenças túrgidos humores no embalar o ser que sendo ainda nulo, é que ser mesmo vazio, está seu cobrir abre torpores de um nada quase gente - o mar sempre condescendente com o possível que nunca é falir ser, sendo alter do cão

A montanha dos adeptos

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A Montanha dos Adeptos, de  Stephen Michelspacher (ALCHIMIA, 1654)

Le chat noir

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como num gato preto - de afeto e de desejo - escorro meus dedos por entre os pelos da noite e me deixo vagar alheia ao medo pelas terras onde rejo desprotegida do açoite. soberano animal de instinto universal, carrego em meu colo teu miado solo; em minhas mãos eu te consolo acariciando todo o meu mal. Como num gato preto - de afeto e de desejo - surgem as unhas do que não vejo cravarem-se em minha pele: todos os sonhos em que prometo amansar o ronronar do insano pejo. - marceline se espreguiça e vai -

diálogos cotidianos

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- ...não, mas põe um pouco mais de água no balde e mistura com o desinfetante. - isso aqui não é suficiente não? - é que tu vais molhar o pano nessa água e a medida que for limpando o chão tu vais limpando o pano nessa água. - mas como assim? quer dizer que eu vou limpar com a água suja do que acabei de limpar? - a limpeza é uma coisa relativa, X. sorriso complacente para mim, enquanto finalizo o trago no cigarro de palha. - o importante é reproduzir o que foi ensinado. - ah, claro! o importante é reproduzir o legado da estupidez humana!

... rascunhos do que sou no. 3

O caixão permanecia na sala de estar. Ao encontrar minha mãe cuidando dele, mais uma vez sinto que o tempo de enterrá-lo estava passando e ela deveria despedir-se da sua própria mãe que jazia ali. Minha mãe velando a sua mãe.  Cuidadosamente ela ajeitava o tecido da roupa, o cetim branco e acolchoado da estrutura, as  flores. Aquilo me preocupava, por achar que minha mãe evitava desfazer-se, estava atada ao corpo e ao cuidado do corpo da sua mãe.  Afasto-me em busca do meu quarto, quando ela reage, dá um grito de medo. O corpo começara a mexer-se. Eu pensava que aquilo é que deveria ser evitado, que aquele ponto de putrefação faria que inevitavelmente o corpo começasse a se mexer (essas lógicas absurdas de sonhos), que aquilo se dava por um efeito natural: se não enterramos nossos mortos em tempo hábil, seus corpos monstruosos, por efeito da putrefação, voltam a mexer-se e isso deve ser evitado, como um tabu.  A medida que minha vó mexia-se cada vez com mais e...

...rascunhos do outro que sou no. 2

O calor emana de todas as superfícies. A princípio, da paisagem praieira que cerca o local onde caminhamos ao passo da descoberta, uma vez que era evidente a nossa categoria de turistas, depois das pessoas que pouco a pouco brotavam de todos os cantos. Curiosamente, todos éramos turistas, e, como se não bastasse, parecíamos turistas.  Cores quentes, coquetéis coloridos, obviamente decorados com cerejas ou sombrinhas azuis, rosas, verdes ou amarelas; camisas de botão de padrões praianos que repetiam coqueiros ao vento; dunas, sorrisos e pranchas de surf, além de sorrisos abertos e brancos sob os óculos escuros que escondiam os olhos apertados entre as bochechas sadias... Enfim, a aglomeração naquele espaço mais parecia uma salada de frutas.  Paulatinamente, à medida em que as pessoas e o burburinho alegre aumentavam ao redor, eu sentia que minha alegria crescia juntamente com uma vontade insaciável por mais alegria. Eu fazia parte daquele espaço de calor, sentia-me integra...

... rascunhos do outro que sou

Ampliações oníricas Sonho: a fuga Noite. Era acompanhada pela presença silenciosa do corpo alto do amigo-amante, sempre atrás de mim. Assim, toda a imagem que essa figura masculina apresenta no sonho é periférica, nunca a encarando realmente de frente. Quando isso ocorre, seu rosto é uma neblina, mas a nitidez da presença o marca como sendo tal e tal companheiro. E nos dirigíamos a uma festa de aniversário, caminhando contentes em silêncio. Ao chegar ao portão de ferro, pintado de um branco que descascava ao estourar da ferrugem que emergia do tempo, a amiga em comum, que aniversariava, reagiu com grande energia e alegria a nossa chegada.  Àquela altura eu segurava o portão com uma das mãos e meus dedos se prendiam nos arabescos de ferro. Ela, então, o abrira com muita força, puxando minha mão com o portão e me causando dor. Minha reação a esse infortúnio foi exagerada e, em frente a grande parte dos convidados que estavam sentados em mesas dispostas em círculo na ga...

vemos por um espelho, como se por enigma

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Não se sentia fraca. Embora aquela outra, personagem, se reconhecesse assim, incapaz de viver entre os dois mundos. Ela não, aquilo para ela era um escolha, determinada por anos de negação que culimaram por convencê-la; afinal os padrões uma hora falham e a repetição faz-se diferença.  O filme terminava com uma suíte de Bach para violoncelo, descompassado do seu coração que batia em andamento musical em presto  e que, embora ligeiro, pesava todo o corpo, incapaz de se mover. Havia entendido esses momentos de quebra em que se via estendida sobre uma mesa cirúrgica: algo operava ali, no vazio, no silêncio, na solidão e esse algo só podia ser a plenitude de Deus e do Amor. Se tudo pode mesmo acontecer, como um milagre esperado, árvore vicejando vida, a salvação de si, era o Amor que operava esse milagre.  Não, sentia-se forte, disposta a encarar a tempestade de frente: pois que viesse Deus no olho do furacão, viessem ossos, casas alagadas, os filhos que não tivera, os...

Piadas bravas, descontínuas

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Piadas bravas, descontínuas Suadas de febre Aniquilam O erro que se supõe atroz, que destrói a modificar num golpe a própria foz O erro que cobre e acoberta O ser-se assim Temeroso, abstêmio Calculado, sereno Como a mão que nunca se perde No acidente Como a boca nunca repreendida Por um soco A vida segue e se calcula Como medo Se ensaia no erro, na destreza da esquiva Alter do cão, poeta latino.
parto do princípio que o coração encontra o seu fim ao ser arrancado de dentro do peito fatigado. parto de outro princípio: que mesmo despedaçado em cacos agudos partidos quebrados o coração não se renova, torna-se um outro coração este mal formado.