...rascunhos do outro que sou no. 2
O calor emana de todas as superfícies. A princípio, da paisagem praieira que cerca o local onde caminhamos ao passo da descoberta, uma vez que era evidente a nossa categoria de turistas, depois das pessoas que pouco a pouco brotavam de todos os cantos. Curiosamente, todos éramos turistas, e, como se não bastasse, parecíamos turistas.
Cores quentes, coquetéis coloridos, obviamente decorados com cerejas ou sombrinhas azuis, rosas, verdes ou amarelas; camisas de botão de padrões praianos que repetiam coqueiros ao vento; dunas, sorrisos e pranchas de surf, além de sorrisos abertos e brancos sob os óculos escuros que escondiam os olhos apertados entre as bochechas sadias... Enfim, a aglomeração naquele espaço mais parecia uma salada de frutas.
Paulatinamente, à medida em que as pessoas e o burburinho alegre aumentavam ao redor, eu sentia que minha alegria crescia juntamente com uma vontade insaciável por mais alegria. Eu fazia parte daquele espaço de calor, sentia-me integrar aos elementos que o compunham sob o risco de me desprender de mim, de soltar, decalcar para integrar ao todo. Tamanha a vibração, tamanha a alegria!
No entanto, algo ainda me prendia ao que eu era antes dessa vibração crescente que me desestabilizava: minha companhia. Ele estava desde o início ao meu lado, em silêncio, com um sorriso complacente.
Era mais alto que eu, carregava a tiracolo uma pentax o 1000, vestia camiseta e calça preta, contrastando plenamente com o ambiente e a minha euforia. Enquanto sua postura revelava uma certa apatia para com vibração do momento, esforçava-se para ser atencioso com meu entusiasmo por meio de um meio sorriso.
Esse meu companheiro que nada falava, por outro lado, transmitia a paz de casa, como se trouxera comigo uma parte do local ao qual pertencia. Por isso, sentia-me como se estivesse acompanhada de meu pai. E como um pai amoroso, agia com condescendência para com meus arroubos histéricos.
Dentre esses arroubos, uma descoberta no meio da multidão me fez dar pulinhos irritantes e desconformes. Havia avistado um painel daqueles em que encaixamos o rosto a fim de adquirirmos a identidade ali desenhada, a qual, no caso, era a de uma havaiana de top, saia de palha e colar de flores dançando ula ula. A essa altura a minha alegria se tornará agressiva e eu puxei meu companheiro pela mão, abri espaço na multidão e o posicionei em frente ao painel para que tirasse uma foto minha. Mas algo não funcionava mais muito bem e, de onde o posicionei até passar por trás do painel, comecei a sentir a ameaça que aquela alegria violenta me proporcionava.
Meu coração, então, pôs-se a bater apertado no peito, meus vasos sanguíneos se comprimiram, senti que empalidecia e, mesmo assim, ousei encaixar capengamente o meu rosto no buraco oval a qual ele se destinava. O sorriso, que estava cravado no meu rosto desde o início,cristalizou e rompeu no disparo do flash. Senti que ele caía do meu rosto e levava consigo todo o resto, perdendo minha identidade ali, em poeira de sorrisos eufóricos a ser pisoteado pela multidão de turistas.
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