vemos por um espelho, como se por enigma
Não se sentia fraca. Embora aquela outra, personagem, se reconhecesse assim, incapaz de viver entre os dois mundos. Ela não, aquilo para ela era um escolha, determinada por anos de negação que culimaram por convencê-la; afinal os padrões uma hora falham e a repetição faz-se diferença.
O filme terminava com uma suíte de Bach para violoncelo, descompassado do seu coração que batia em andamento musical em presto e que, embora ligeiro, pesava todo o corpo, incapaz de se mover. Havia entendido esses momentos de quebra em que se via estendida sobre uma mesa cirúrgica: algo operava ali, no vazio, no silêncio, na solidão e esse algo só podia ser a plenitude de Deus e do Amor.
Se tudo pode mesmo acontecer, como um milagre esperado, árvore vicejando vida, a salvação de si, era o Amor que operava esse milagre.
Não, sentia-se forte, disposta a encarar a tempestade de frente: pois que viesse Deus no olho do furacão, viessem ossos, casas alagadas, os filhos que não tivera, os últimos suspiros dos pais, viesse esse segredo que ela só via por enigma, viessem a vida e a morte, seus desejos, seu sexo, pois que viessem todos e se revelassem plenamente.
- Vem, Deus, mostra logo a tua cara, vem à luz que já estou pronta para parir!
Theotokos de Vladimir - A portadora de Deus
Ruminando o Através de um Espelho e O Sacrifício

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