... rascunhos do outro que sou
Ampliações oníricas
Sonho: a fuga
Noite.
Era acompanhada pela presença
silenciosa do corpo alto do amigo-amante, sempre atrás de mim. Assim,
toda a imagem que essa figura masculina apresenta no sonho é periférica, nunca
a encarando realmente de frente. Quando isso ocorre, seu rosto é uma neblina,
mas a nitidez da presença o marca como sendo tal e tal companheiro. E nos
dirigíamos a uma festa de aniversário, caminhando contentes em silêncio.
Ao chegar ao portão de ferro,
pintado de um branco que descascava ao estourar da ferrugem que emergia do
tempo, a amiga em comum, que aniversariava, reagiu com grande energia e alegria a
nossa chegada. Àquela altura eu segurava
o portão com uma das mãos e meus dedos se prendiam nos arabescos de ferro. Ela,
então, o abrira com muita força, puxando minha mão com o portão e me causando
dor.
Minha reação a esse infortúnio
foi exagerada e, em frente a grande parte dos convidados que estavam sentados
em mesas dispostas em círculo na garagem da casa onde acontecia a festa, fui
atrás de gelo para por no machucado. Meu
companheiro sempre em silêncio, me acompanhava.
Recobrando a calma e retornando
ao ambiente da festa, notei que todos me olhavam cruelmente judiciosos. Foi
quando encarei pela primeira vez meu companheiro e seu rosto não era nítido,
nublado que estava pela minha vergonha. Se antes sua presença era uma leve
alegria compartilhada, a partir desse momento tornou-se impossível permanecer a
sua frente. Os olhos dos outros me expunham horrenda e me expulsavam dali.
Corri. Corri desesperadamente.
Nessa parte, a fuga estabelece um paralelo com outros sonhos de fuga... de
monstros, fantasmas, ladrões. Eu sentia que se permanecesse sob seu olhar,
minha alma morreria e eu seria sugada pela culpa e pela vergonha, secando. A
fuga, então, é uma questão de sobrevivência. O terrível é que ele demonstrava
preocupação e me perseguiu até um bar, onde me foi negada uma bebida pelo
garçom que me olhava da mesma forma judiciosa dos convidados.
Ao me alcançar, tornei a correr
da sua presença. O sonho aí já virara pesadelo e eu estava próxima de acordar.
Desci uma ladeira em curva, toda
margeada por plantas ornamentais e ao final tropecei e chorei ao chão,
sendo abraçada pelo companheiro que me consolou.
Esse sonho suscitou em mim o
reconhecimento de uma série de feridas até então pouco conscientizadas e que
trouxeram à tona questões cruciais.
Antes de tudo a questão da noite
é significativa. Embora seja um reflexo natural do que vivíamos na realidade,
uma vez que o sonho emula uma situação corriqueira a amigos que possuem uma
vida social noturna, a noite é sentida como uma presença constante também. O
céu noturno era amplo e contrastava com a visão periférica de meu companheiro e
das pessoas com que interagia. O único momento em que o céu noturno não aparece
no sonho é o em que entro no bar, uma casa trabalhada cuidadosamente na madeira
de dois andares. Portanto a noite pode ser considerada uma presença que indica
o espaço/tempo exato em que se dão os acontecimentos. A noite como um mergulho
no inconsciente. Ao mesmo tempo, ver-se sempre sob o céu sugere que tudo se deu
na rua, espaço de trânsito, onde a maior parte do tempo me/nos locomovemos. De
fato, em nenhum outro momento eu paro, a não ser no bar. Sempre em movimento na
longa noite que tem se estendido até aqui, no momento em que escrevo. Uma longa
noite onde se dá uma fuga.
O portão também é significativo. E
acredito que cumpra o papel de pórtico para uma festa de alegria dionisíaca que
nos vem receber e acaba por me ferir. É, de fato, contra a dor que a alegria
eufórica da amiga aniversariamente me provocou que reajo com violência, uma
reação contrária ao acolhimento dionisíaco e bacante da anfitriã: afinal,
deixei meus dedos enroscados no portão de entrada dessa festa e resisti à
violência dessa alegria com violência.
Onde eu deveria fluir o
recebimento da anfitriã, reagi com explosão à dor causada por ela. A partir de
então a festa não é mais acolhimento, mas tribunal, culpa, negação. E o
equilíbrio de alegria comedida e plena da companhia de meu amigo-amante é
quebrada. Sua presença passa a suscitar dor, vergonha e medo. É preciso fugir
do que os olhos dessa festa prometida pela noite do inconsciente refletem de
mim e que se mostra aos olhos nublados do companheiro.
Fugir sob a pena de ser aniquilada
se permanecer em sua presença. O que na minha violência lançada contra a minha
sombra ali exposta como fragilidade se mostra como verdade ainda insustentável,
ou melhor, impossível de suportar e que se mostra fatal?
Finalmente o bar, onde encontro rápido refúgio das revelações e perseguições
da noite se mostra infrutífero como fuga. Não é no torpor que conseguirei me
esconder do que me persegue, não dessa vez. Embora tenha me servido de abrigo,
o torpor é negado e me vejo obrigada a voltar a fugir.
O fim é a queda e o consolo que
me resgataria da histeria. É preciso que eu caia para que eu seja alcançada
pelo apaziguamento. O quebranto e o abraço mostram que somente pela dor minha alma
vai parar de fugir e enfrentar o meu animus
que está em silêncio, apenas, guardando, ao invés de perseguindo,
equilibrando um pouco da alma que se debate em liquidez. Para além de
representar uma pessoa em si, o companheiro refletiria o masculino silenciado
pela força anímica que me guia. Sou eu que tomo a frente em meu aspecto mais
feminino, é minha alma que sai pela noite adentro, buscando as revelações do
que sou nessa longa noite de festa e pavor.
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