carta ao irmão
E me invadem saudades das nossas conversas pretensiosas, da sensação de tocar no fogo das nossas almas, de nos sentir em suspensão do mundo nas entranhas das nossas ideias e pensamentos. E um cordão de imagens, um comboio de lembranças, um cortejo de afetos passam em carnaval. Porque é assim que te vejo hoje, com a intensidade que pensei que sustentaria até o fim, mas que ficou ali pra trás, amarelecendo como as fotos mais antigas desse baú. Não pense, no entanto, que isso é um lamento. O gosto pela nostalgia ainda me soa a deleite lânguido, estado mde espírito que cultivo ainda hoje, mas que reservo aos meus santuários mais íntimos, onde surges dos resquícios.
Marcas.
Tarde no jardim, com um livro equilibrado sobre as pernas cruzadas enquanto tentas acender o cachimbo. Algo nunca superado! Minha mãe havia te dado um cachimbo feito de madeira de roseira e isso sempre me fazia sorrir de indignação! Mas ali, no jardim de outrora, quanta afetação! Éramos baluartes de nós mesmos e acreditávamos nisso enquanto as ideias fluíam entre um parágrafo e outro em que líamos todos os livros do mundo. Nossos egos inflados de sentido. Nesses momentos, o que desejávamos? Sobraria espaço para outro desejo a não ser nós mesmos? O cultivo dos nossos jardins.
Farejadores e amantes, buscávamos o que havia de sagrado nos outros ao sair desse torpor de si. Amávamos as almas, sacralizávamos os seus encontros, mergulhávamos em nossos amantes e sofríamos por isso. O sagrado dos outros afinal era uma quimera. Eu tentava te convencer de que deveríamos ter um filho, mas ali já amavas os homens. E os amava distinto, um local onde nunca pude pisar: a tua forma de amar os homens.
Sim, eu desconfiava de que conseguias ver melhor de onde estavas. Porque me viste aflita, sabias como eu reagia ao embate:
Sala. Já não lembro sobre o que discutíamos, mas me enraiveci de tal forma que perdi o controle, saí esbravejando enquanto permanecias sentado, rindo, e eu esmorecia. O que havia ali? Teu sorriso e tua amizade, teu amor e tua loucura que me levavam ao extremo e amortecia. Porque nunca fostes condescendente aos meus infantilismos e limites, porque sabias que era uma questão de tempo, porque me viste ensandecida, dionisíaca, vibrante e me amavas assim. Eu não. Tinha horror àquela outra que conseguias ver às minhas costas. Meu ser blasé achava esses rompantes uó. Qualquer alegria era um insulto ao equilíbrio, uma afronta ao bom gosto. Mas a minha alma era como a de Bernardo Soares, como uma orquestra oculta de um balé clássico.
Era divertido ouvir minha alma tocando um tango?
Retalhos.
A primeira vez em que soluçaste chorando em meu abraço. Deitaste no colo da minha mãe, no meu, nos colos e camas de todos. Pulando em minha cama para eu levantar cedo e fazer café da manhã pra ti, pulando na minha cama pra pegar um livro que não queria te emprestar, pulando na minha cama para conversar. Tua barba e tua voz escorrendo pelos anos, nessa casa ou em Brasília. Tua voz e risada, teus exageros.
Cada exagero
guardado
tecido
bordado na manta da memória que se estende e se desenrola nessa tarde ou numa outra qualquer em que somos irmãos.
Marcas.
Tarde no jardim, com um livro equilibrado sobre as pernas cruzadas enquanto tentas acender o cachimbo. Algo nunca superado! Minha mãe havia te dado um cachimbo feito de madeira de roseira e isso sempre me fazia sorrir de indignação! Mas ali, no jardim de outrora, quanta afetação! Éramos baluartes de nós mesmos e acreditávamos nisso enquanto as ideias fluíam entre um parágrafo e outro em que líamos todos os livros do mundo. Nossos egos inflados de sentido. Nesses momentos, o que desejávamos? Sobraria espaço para outro desejo a não ser nós mesmos? O cultivo dos nossos jardins.
Farejadores e amantes, buscávamos o que havia de sagrado nos outros ao sair desse torpor de si. Amávamos as almas, sacralizávamos os seus encontros, mergulhávamos em nossos amantes e sofríamos por isso. O sagrado dos outros afinal era uma quimera. Eu tentava te convencer de que deveríamos ter um filho, mas ali já amavas os homens. E os amava distinto, um local onde nunca pude pisar: a tua forma de amar os homens.
Sim, eu desconfiava de que conseguias ver melhor de onde estavas. Porque me viste aflita, sabias como eu reagia ao embate:
Sala. Já não lembro sobre o que discutíamos, mas me enraiveci de tal forma que perdi o controle, saí esbravejando enquanto permanecias sentado, rindo, e eu esmorecia. O que havia ali? Teu sorriso e tua amizade, teu amor e tua loucura que me levavam ao extremo e amortecia. Porque nunca fostes condescendente aos meus infantilismos e limites, porque sabias que era uma questão de tempo, porque me viste ensandecida, dionisíaca, vibrante e me amavas assim. Eu não. Tinha horror àquela outra que conseguias ver às minhas costas. Meu ser blasé achava esses rompantes uó. Qualquer alegria era um insulto ao equilíbrio, uma afronta ao bom gosto. Mas a minha alma era como a de Bernardo Soares, como uma orquestra oculta de um balé clássico.
Era divertido ouvir minha alma tocando um tango?
Retalhos.
A primeira vez em que soluçaste chorando em meu abraço. Deitaste no colo da minha mãe, no meu, nos colos e camas de todos. Pulando em minha cama para eu levantar cedo e fazer café da manhã pra ti, pulando na minha cama pra pegar um livro que não queria te emprestar, pulando na minha cama para conversar. Tua barba e tua voz escorrendo pelos anos, nessa casa ou em Brasília. Tua voz e risada, teus exageros.
Cada exagero
guardado
tecido
bordado na manta da memória que se estende e se desenrola nessa tarde ou numa outra qualquer em que somos irmãos.

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