CONVERSA N.1

um dia as estrelas vão cair e tudo o que vai restar é um céu negro sobre nossas cabeças e...

um chão salpicado delas? você já disse isso.

estou me repetindo?

(dando de ombros, ajeitando o cabelo, acendendo um cigarro) mais ou menos. fica de boa. a gente sempre se repete mesmo.

(silêncio)

sabe...

o que?

certa manhã eu voltei para o meu apartamento, bêbado, e lá estava a silhueta, sabe, de quem eu te falava, recortada contra a cortina. a minha surpresa foi ver que ainda não tinha se mandado.

ido embora?

é, e eu tive vontade de dizer algo, mas a minha língua estava pesada. mas pensei que não passávamos de fantasmagorias... (gole na bebida - alguém escolhe "the big hurt", com del shannon, na jukebox. um sorriso) há tempos não ouvia essa...

eu também gosto dela, mas prefiro "lightnin' strikes" (outro sorriso)

lou christie?

isso mesmo...

(apaga o cigarro no cinzeiro, esmaga com o polegar)

você falava de fantasmagorias...

fodam-se elas. vou te contar uma coisa: eu tenho muita raiva guardada em mim. uma gana puta de tocar o terror em alguém.

sério?

serio!

eu sempre tive esse... desejo... de ser objeto da raiva de alguém.

então eu olho para você e enxergo uma fantasmagoria. alguem que vai expiar meu ódio, minha ira, tua dor, minha obsessão.

eu não tenho palavras para a minha felicidade.

Não as tenha. apenas suporte a alegria de sofrer em silêncio.





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