Tender is the ghost
The ghost I love the most
Hinding from the sun
Waiting for the night to come
Tender is my heart
For screwing up my life
Lord, I need to find
Someone who can heal my mind
(Blur - Tender)
Dos sentimentos intensos, ao qual tudo o que sou responde vibrando, a ternura parece ser o meu predileto. Considerada inofensiva, atrelada ao sentido do meigo, do afetuoso, como de fato encontras no dicionário, a ternura esconde seus tentáculos sob a capa da frivolidade. Por isso, se me permites novamente, é preciso tatear com calma o relevo geográfico desse afeto para que um esboço de cartografia nos permita melhores viagens; ou, pelo menos, trajetos pouco acidentados.
Antes de tudo a ternura é uma pinça no nosso nervo sensitivo que paralisa e comove nosso corpo. Quando ela se manifesta, ela explode na superfície, atirando longe qualquer máscara. Somos automaticamente despidos pelo sentimento de ternura que nos denuncia submetidos à capacidade de amar. Todo reconhecimento da presença da ternura no nosso palco interno nos soa como um flagrante. Portanto, há na ternura essa qualidade de bote, de ataque inesperado.
Por isso, antes de ser cor de rosa, a ternura é um flash disparado inesperadamente no meio da noite e pode ter muitas cores.
Eu te falava sobre os sentimentos intensos, não era? E eu te pergunto, será que não corremos o risco de confundir a ternura com o seu objeto? Faltou dizermos que a ternura está dentro da categoria dos sentimentos do amor e o amor não me parece ser determinado pelo seu objeto, ainda que suas qualidades o sejam. Em outras palavras, a ternura não se determina pelas patas do nosso animal de estimação, pelo sorriso de um bebê, pela suavidade do perfil dos idosos, como se apenas esses objetos suscitassem o terno, pois quanto de ternura não sentimos por aquele amigo chato, ou por nosso interlocutor numa discussão severa? Sim, é impossível que a ternura surja por objetos que nos causem desprezo ou que sejam abjetos, já que é uma forma de amor, mas quantos são os objetos do amor? Longe de querer me esquivar dessa pergunta, penso que a quantidade de objetos amorosos depende da capacidade de amar do amante e se isso se aplicar à qualidade do sentimento de ternura, sentir ternura depende igualmente dessa potência para ternura que cada um tem.
Mas e então? Por que/quem somos capazes de sentir ternura definitivamente não nos fala nada sobre ternura a não ser de nós mesmos, ponto ao qual voltamos se lembrarmos do despir-se e do flagra-se despido de ternura. A ternura, seria, assim, um espelho onde vemos refletidos a beleza (mesmo que particular ou exótica) do objeto que nos flagramos sensíveis à, de forma inadvertida.
A ternura, sempre à espreita, está escondida na dislexia charmosa do amigo, entre as páginas de um livro viradas pelas mãos de um leitor ávido, no compartilhar, nas demonstrações de amor inesperadas, nos arranhões e cicatrizes, nos sinais, no mínimo e no ordinário... e tem a capacidade de engrandecer, reluzir, superestimar o objeto até torrar nosso nervo sensitivo de amor. Por isso, talvez, até pode ser que a ternura seja perigosa, já expõe esse nervo.
Como um fantasma que mais amamos, algumas ternuras só são seguras se nos acometem à escuridão da noite.
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