Milagres


Tem golpes da vida que não deixam espaço para respirar entre um ataque e outro.
Esses golpes têm a eficácia de nos desterritorializar, arrancando à força os mapas internos, os caminhos de casa, a identidade; golpes que nos fazem perambular nas florestas mais densas em busca do nosso nome, como crianças perdidas, como Alice.
Por isso a urgência em buscar referências, trilhar caminhos conhecidos, voltar às águas da infância; por isso o errar sem destino, pois já não há volta e as portas da casa da infância estão fechadas.
O decifrar do Destino rir-se por trás dessas portas da casa materna, trancafiado na mudez dos fatos que pontuam a nossa vida.
Desses golpes faço listas no corpo, tatuagens que passam a compor a nova paisagem da superfície para restar fundamentos do que construirei sobre as ruínas a seguir.
1 - o olhar possesso da mãe
2 - as cavidades profundas dos olhos mortos do pai
3 - o adeus que se vê liberto do amor
4 - a pele flácida da solidão na velhice
5 - o homem que amas e que outrora sentou a tua frente segurando as tuas mãos em silêncio
6 - o olhar vacilante do ladrão que anuncia a possibilidade de te matar
7 - a violência que explode das tuas mãos ao amante que a recebe passivo.

Asfixiados por golpes desse tipo (e são tantos outros, quem poderia medir o tanto de golpe para o tanto de gente golpeada?), não sobrevivemos. Voltamos à vida, como um Lázaro, um milagre.
Um milagre.



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