... rascunhos do que sou no. 3
O caixão permanecia na sala de estar. Ao encontrar minha mãe cuidando dele, mais uma vez sinto que o tempo de enterrá-lo estava passando e ela deveria despedir-se da sua própria mãe que jazia ali. Minha mãe velando a sua mãe.
Cuidadosamente ela ajeitava o tecido da roupa, o cetim branco e acolchoado da estrutura, as flores. Aquilo me preocupava, por achar que minha mãe evitava desfazer-se, estava atada ao corpo e ao cuidado do corpo da sua mãe.
Afasto-me em busca do meu quarto, quando ela reage, dá um grito de medo. O corpo começara a mexer-se. Eu pensava que aquilo é que deveria ser evitado, que aquele ponto de putrefação faria que inevitavelmente o corpo começasse a se mexer (essas lógicas absurdas de sonhos), que aquilo se dava por um efeito natural: se não enterramos nossos mortos em tempo hábil, seus corpos monstruosos, por efeito da putrefação, voltam a mexer-se e isso deve ser evitado, como um tabu.
A medida que minha vó mexia-se cada vez com mais energia, o medo de minha mãe aumentava. Assim, eu passo a cuidar do desespero dela, do pavor, dos olhos estarrecidos pela falta de sentido. Com medo, trouxe-me para o quarto dela e nos trancou ali, com fé de que o corpo voltaria a andar. Ela achava que ao se trancar, uma hora o corpo ia embora e ela não precisaria ter que lidar com isso, com enterros.
Acordo angustiada. Dessa vez a mensagem do inconsciente foi bem clara. É preciso enterrar os mortos sob o risco deles voltarem a se movimentar involuntariamente, como meus sonhos. Os sonhos são os braços e pernas do que evito enterrar. Mexem-se involuntariamente causando pavor justamente na persona mais velha, na mãe que carrego em mim.
Os quartos não vão nos proteger para sempre dos mortos.
Os quartos não vão nos proteger para sempre dos mortos.
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