Póstigos
A vida gelada por trás dos póstigos
Traz olhos atentos, mórbidos,
A acompanhar o eco dos passos
- lógicos, módicos, óticos -
De quem vai sem voltar.
...
Traz olhos atentos, mórbidos,
A acompanhar o eco dos passos
- lógicos, módicos, óticos -
De quem vai sem voltar.
...
Havia retornado por vê-se incapaz, vencida pelo lamaçal de barro do canal em meio a floresta. Era ultrajante que seu companheiro não percebesse essa impossibilidade antes de ter proposto o passeio de final de semana com o cachorro; e agora se sentia abandonada. Com o objetivo claro, lúcido, vulgarmente lúcido, estupidamente lúcido, ele continuou até encontrar o afluente do Tarumã, onde planejou divertir-se com ela e com o cão.
O cão e ele perderam-se de sua visão. De onde estava, encostada do lado de fora do carro, já não ouvia nenhum sinal deles. O cão e o homem, estúpidos animais. Restava a fronteira, onde jazia sua incapacidade...a lama, o barro, a sujeira. Sentiu seu estômago revirar ao lembrar que ele levara a chave do carro. Pensou em como isso é uma metáfora dessa relação: presa do lado de fora, eternamente à espera dele, o único portador da chave. Mas foi um pensamento breve, quase sem imagem, quase sem forma. Porque a metáfora não se impõe ante a crueza da matéria significativa. E o significativo era o lamaçal que os separava, sua incapacidade, suas havaianas que não poderiam, não deveriam nunca, pisar em lama.
Da alegria do cão e do companheiro, só retornou a indignação. Não poderia nunca imaginar a potência escondida em chocar-se contra o barro, voltar a ser barro, plenamente. Passeou, tergiversiva pelas cercanias de ser outra.
...
"Todo desejo, para Spinoza, é potência de agir ou força de existir (“agendi potentia sive existendi vis”), potência de viver, pois, e a própria vida como potência. Que prazer pode haver de outro modo? Que amor? Que vida? A morte seria mais fácil, e alguma coisa tem de nos separar dela. Se a fome é falta de alimento, portanto sofrimento, o apetite é potência de comer (inclusive quando o alimento não falta) e de desfrutar o que se come. Dir-se-á que o apetite é apenas uma fome leve e que a falta continua a ser, nisso, o essencial. Mas não, pois os mortos não têm fome: a fome supõe a vida, a falta supõe a potência. Reduzir o desejo à falta é tomar o efeito pela causa, o resultado pela condição. O desejo é primeiro, a potência é primeira. É ao anoréxico que falta alguma coisa, não ao que come com apetite! É ao melancólico que falta alguma coisa, não ao que ama a vida e a frui com sofreguidão! É ao impotente que falta alguma coisa, não ao amante feliz e disposto!"
(In: Pequeno tratado das grandes virtudes. Comte-Sponville)
Comentários
Postar um comentário